Capa de disco: Rosa do Povo – Martinho da Vila (1976)

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Trabalho realizado na disciplina de História das Artes Gráficas, do curso de Tecnologia em Design Gráfico (UTFPR), pelos estudantes Raffaela Romaniow Galvão, Felipe Antonio Shaw de Souza, Francielle Albini Ferreira 
sob orientação da profa. Maureen Schaefer França.

1. Martinho da Vila, uma breve biografia

Martinho da Vila ou Martinho José Ferreira, nascido em Duas Barras (Rio de Janeiro) em 1938, é compositor, produtor, cantor, ritmista e escritor. Suas composições retratam os subúrbios brasileiros, a celebração da herança africana e assuntos cotidianos de maneira poética.

Sua dedicação à escola de samba “Unidos da Vila Isabel” começou em 1965, história que por muitas vezes é confundida com a sua, e desde então, assinou vários sambas-enredos da escola, consagrando seu nome como “Martinho da Vila”. 

Martinho participou do III Festival da Record (1967), no qual concorreu com a música “Menina moça”, porém, o sucesso só veio no ano seguinte com o lançamento da canção “Casa bamba”. Todavia, seu primeiro álbum só foi lançado em 1969, constando o título com o seu nome, “Martinho da Vila”, onde mostrava sua maestria como compositor e músico. Martinho é o segundo sambista a ultrapassar a marca de um milhão de cópias com o álbum “Tá delícia, tá gostoso” lançado em 1995 .

Martinho conquistou diversos prêmios ao longo de sua carreira, entre eles, 5 prêmios Sharp na categoria samba e o prêmio Shell de Música Popular Brasileira. Ganhou o Grammy Latino em 2016 com o Álbum “De Bem Com a Vida”, entre outros. 

A discografia de Martinho da Vila é extremamente extensa, com mais de 50 álbuns, sendo o primeiro, “Martinho da Vila” e o último “Rio: Só vendo a vista”. Porém, seu álbum mais famoso é: “Canta canta, minha gente”, que visa representar as camadas desfavorecidas da sociedade brasileira, reiterando a importância da esperança e do ânimo para seguir em frente.

2. Designer da capa: Elifas Andreato

A capa do álbum foi feita pelo designer gráfico, artista plástico e ilustradorElifas Andreato, que nasceu em Rolândia (Paraná) em 1946, porém já falecido, despedindo-se em 2022 aos 76 anos. O marco inicial da carreira de Elifas foi em 1965, quando abandonou seu trabalho como aprendiz de torneiro mecânico na fábrica Fiat Lux, em São Paulo, para dar os primeiros passos na trajetória artística. Trabalhou na Editora Abril em 1960 e participou da equipe de criação de inúmeras revistas. Com mais de quarenta anos atuando como artista plástico, Elifas se tornou conhecido especialmente por suas artes de capas de discos realizadas nos anos 70, incluindo grandes nomes como: Chico Buarque de Holanda, Vinícius de Moraes, Martinho da Vila, Elis Regina, Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa e Toquinho. Não raras vezes, Elifas protestou contra a ditadura por meio da arte, de tal forma que foi perseguido pelos militares na época.

3. Capa de disco “Rosa do Povo” (1976)

O álbum foi inspirado no livro homônimo lançado em 1945 por Carlos Drummond de Andrade. Embora Martinho não tenha musicado os versos de Drummond, a poesia pautou boa parte do repertório de “Rosa do Povo”, no qual assim como o poeta, procurou abordar desigualdades sociais, sofrimento e injustiças.

A rosa do povo (1945) – Carlos Drummond de Andrade.

A ilustração da capa apresenta um par de pés humanos, de pele negra, descalços. São pés calejados, com as unhas sujas pelo contato com a  terra. Os pés descalços aludem a uma relação de proximidade com o trabalho e também à ideia de pobreza. Os pés parecem ser masculinos, e em conjunto com o chão de pedras, fazem lembrar os pés das figuras humanas das pinturas de Portinari que falam da realidade dos trabalhadores brasileiros como “Os Retirantes” e “O Lavrador de Café”. São pés de aparência rústica, que pisam em um chão árido, numa condição de trabalho pesado, que fica marcado no próprio corpo.

Essa temática do trabalho com a terra parece ter relação com o engajamento social presente no livro de Carlos Drummond de Andrade, de exaltar a figura do trabalhador. Ademais, é possível pensar na sugestão de uma revolução socialista, devido a presença da rosa vermelha, símbolo do socialismo desde a década de 1880. A ilustração apresenta a imagem de uma rosa vermelha que brota do chão árido, e seus ramos se entrelaçam nas pernas retratadas.

Os espinhos da rosa estão penetrando a pele do homem, o que pode evocar a ideia do sofrimento do povo trabalhador, da desigualdade social. Ademais, há um solo aparentemente árido, com pedras, mas de onde brota o caule verde da flor, que se entrelaça na perna do trabalhador, que além de aludir ao sofrimento, com os espinhos, pode evocar a ideia de vida que está nascendo desse solo, trazendo a esperança numa vida mais igualitária, em função da referência ao socialismo com a rosa vermelha. A “Rosa do Povo” pode ser a rosa que aponta para uma ideia revolucionária, de uma sociedade justa, sem desigualdade social, em que os trabalhadores tenham uma vida mais digna. 

O samba, por muitas vezes, é esnobado pelas classes privilegiadas, e até mesmo pela população geral, por conta de suas raízes africanas e o repertório mais informal, elementos associados às camadas menos abastadas. No entanto, estilos musicais são feitos para a expressão de um grupo ou indivíduo, rebaixar o samba é rebaixar o povo brasileiro e sua história de resistência. Martinho da Vila é icônico ao mostrar a esperança que o povo tem. Por mais que não possamos de forma alguma romantizar o sofrimento do povo brasileiro, sempre podemos cantar e celebrar.

REFERÊNCIAS

ITAÚ CULTURAL. Martinho da Vila: Por editores da Enciclopédia Itaú cultural. agosto 2021. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa6334/martinho-da-vila. Acesso em: 24 abr. 2023. 

DISCOS para descobrir em casa – ‘Rosa do povo‘, Martinho da Vila, 1976. [S. l.], 30 abr. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2020/04/30/d iscos-para-descobrir-em-casa-rosa-do-povo-martinho-da-vila-1976.ghtml. Acesso em: 24 abr. 2023.

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