Design Gráfico na América Latina

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Se levássemos em conta livros clássicos da História do Design Gráfico – produzidos geralmente a partir de uma perspectiva eurocêntrica -, eles nos levariam a crer que praticamente não existe conhecimento gráfico na América Latina. No livro “Design Gráfico: uma história concisa”, publicado originalmente em 1994, o autor, o britânico Richard Hollis, abarca sobretudo criações gráficas europeias e estadunidenses. Cuba é o único país latino-americano a ser lembrado ao longo das quase 250 páginas. No livro “História do Design Gráfico”, cuja primeira edição é do ano de 1983, os autores estadunidenses Philip Meggs e Alston Purvis também dão relevo para produções europeias e dos Estados Unidos. Com relação à América Latina, Meggs e Purvis, assim como Hollis, abrangem produções gráficas cubanas além de incorporar projetos mexicanos. No entanto, em cerca de 700 páginas, os autores reservam apenas 8 páginas para tratar do design gráfico realizado por latino-americanos. 

O designer uruguaio Martín Azambuja, fundador do “Gráfica Ilustrada del Uruguay” – arquivo digital que coleta exemplares gráficos uruguaios entre as décadas de 1950 e 1980 -, afirma que deu início ao acervo para que a história do design de seu país seja legitimada. Para ele, a educação em design no Uruguai tende a olhar mais para a Europa e para os Estados Unidos, desvalorizando, por vezes, profissionais locais e prejudicando o reconhecimento/construção da história do design nacional (AZAMBUJA, 2020).

Possivelmente, o apagamento de produções latino-americanas de livros clássicos de História do Design e a desvalorização de profissionais latino-americanos, inclusive pelos próprios locais, são atravessadas pela colonialidade do poder, que modificou visões de mundo em escala “global”, se configurando e se atualizando desde o colonialismo até hoje de forma profunda e persistente.

A colonialidade implica em diversas relações de poder e hierarquias sociais tecidas a partir de articulações de estruturas heterogêneas de opressão. A colonialidade tem como um dos seus núcleos estruturantes uma concepção de humanidade segundo a qual a população mundial se diferenciaria entre seres inferiores e superiores, irracionais e racionais, primitivos e civilizados, possuindo como referência de “evolução” o homem branco da Europa Ocidental, a classe presumidamente moderna da humanidade. Logo, a ideia de irracionalidade que se dirigiu aos indígenas já no final do século XV e aos negros no século XVI tem a mesma origem que sustenta ainda hoje hierarquias entre homens e mulheres; pessoas de camadas privilegiadas e menos favorecidas; europeus e latino-americanos; afetando dimensões afetivas, cognitivas e materiais (QUIJANO, 2009; LUGONES, 2008; RETANA, 2009; ALMEIDA, 2019; AKOTIRENE, 2019).

Aplicada à experiência histórica latino-americana, a perspectiva eurocêntrica de conhecimento opera como um espelho que distorce o que reflete (…). A tragédia é que fomos conduzidos, sabendo ou não, querendo ou não, a ver e aceitar aquela imagem como nossa (…) Dessa forma, seguimos sendo o que não somos (QUIJANO, 2005, p. 129-130).

Sendo assim, construir referências acerca do design latino-americano nos possibilita valorizar e legitimar o que há tempos vem sendo produzido nesta região do planeta como também conhecermos outras formas de expressão de cultura gráfica e outros designers assim como suas respectivas produções e trajetórias profissionais. Também nos possibilita entrar em contato com outros contextos, saberes, práticas, valores e materialidades, ampliando nosso campo do sentir, pensar e fazer design, que há tempos tem sido limitado pela história hegemônica do design.

Nesta perspectiva, nos últimos anos, pesquisadores de diversos países se reuniram com o objetivo de construir histórias do design latino-americano. Desses esforços resultaram alguns livros, sendo os projetos de maior envergadura até o presente momento:

  • Historia del diseño em América Latina y el Caribe – industrialización y comunicación visual para la autonomia, lançado em 2008, e cuja coordenação é assinada pela argentina Silvia Fernández e pelo alemão Gui Bonsiepe;
  • Latin American Graphic Design, dos editores brasileiros Felipe Taborda e Julius Wiedemann, também lançado em 2008;
  • “Diseño latinoamericano: diez miradas a una historia en construcción”, organizado pelas editoras Verónica Devalle (Argentina) e Marina Garone Gravier (México), tendo sido lançado em 2020;

Entretanto, é importante estarmos atentos para que a construção da História do Design da América Latina não se restrinja ao início da implantação de cursos superiores de design, deixando de fora a prática profissional realizada antes dos anos 1950/1960. Pois, como o historiador brasileiro Rafael Cardoso (2005) argumenta, não reconhecer o trabalho de muitos profissionais antes da criação dos cursos de design é uma recusa em legitimar atividades com alto grau de complexidade conceitual, sofisticação tecnológica e grande valor econômico e sociocultural.

Nos anos 1990 e 2000, vários países da América Latina criaram programas como ações de apoio ao desenvolvimento do design nacional. Na Primera Reunión de la Red Historia del Diseño en América Latina y Caribe, realizada em La Plata em 2004, foram definidos enfoques de projeto e métodos de trabalho, entre eles:

  • A proposta de uma antropologia do cotidiano, ou seja, a construção de uma história do design na América Latina como uma história da cultura material e simbólica;
  • Consideração do design popular e anônimo;
  • A não limitação das investigações aos produtos “estrela” – como cadeiras, luminárias, tipografias e cartazes , abrangendo material instrucional médico, ferramentas de trabalho, livros escolares, formulários, design de informação;
  • A recusa de abordagens de designers “heróis e heroínas”, entendendo o design como atividade social inserida em um contexto mais amplo (CRESTO, 2020).

Logo,

é tempo de aprendermos a nos libertar do espelho eurocêntrico onde nossa imagem é sempre, necessariamente, distorcida. É tempo, enfim, de deixar de ser o que não somos (QUIJANO, 2005, p. 139).

Referências

AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. 
ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. 
AZAMBUJA, Martín. In: GOSLING, Emely. Mid-Century uruguayan graphic design proves that creativity flourishes with limitations (2020). Disponível em: <https://eyeondesign.aiga.org/mid-century-uruguayan-graphic-design-proves-that-creativity-flourishes-with-limitations/>. Acesso em: 11.02.22.
BONSIEPE, Gui; FERNANDÉZ, Silvia. Historia del diseño en América Latina y el Caribe: industrialización y comunicación visual para la autonomia. São Paulo: Blücher, 2008.
CARDOSO, Rafael. O design brasileiro antes do design. Cosac & Naify, 2005.
CRESTO, Lindsay. Designers na América Latina. Curitiba (Paraná), 05 out. 2020. Instagram: @teoria_do_design. Disponível em: <https://www.instagram.com/p/CF92f3UBQjS/?utm_medium=copy_link>. Acesso em: 16.02.22. 
GRAVIER, Marian Garone (e outros doze). Diseño latino-americano: dez miradas a uma historia em construcción. Bogotá: Universidad de Bogotá Jorge Tadeu Lozano; Universidad Santo Tomás; Politécnico Grancolombiano, 2020.
LUGONES, María. Colonialidad y Género. In: Tabula Rasa. Bogotá – Colombia, n. 9:73-101, jul./dez., 2008.
QUENTAL, Pedro de Araújo. A latinidade do conceito da América Latina. Rio de Janeiro: Revista do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense, 2014. Disponível em: <https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/13634>. Acesso em: 16.02.22.  
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociais, 2005. 
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (orgs.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina, 2009.
RETANA, Camilo. Las artimañas de la moda: la ética colonial/imperial y sus vínculos com el vestido moderno. Rev. Filosofía Univ. Costa Rica, XLVII (122), setiembre-diciembre, 2009. p. 87-96.
SOUSA, Roberta. A criação da América Latina e o resgate da Abya Yala. Disponível em: <https://www.abracocultural.com.br/criacao-america-latina-abya-yala/>. Acesso em: 16.02.22.
TABORDA, Felipe; WIEDEMANN, Julius. Latin American Graphic Design. Colônia: Taschen, 2008. 
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