O apartamento do solteiro: máquina performativa de gênero

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Paul B. Preciado analisa como certos tipos de masculinidades são construídos performativamente pela arquitetura, design de interiores e mobiliário. O apartamento do solteiro publicado na revista Playboy em 1956, intitulado “Apartamento cobertura Playboy: um refúgio pré-planejado alto, bonito e mobiliado para o solteiro na cidade”, não apresentava somente dicas de decoração, mas funcionava como uma “autêntica máquina performativa de gênero, capaz de transformar o antigo homem em playboy” (PRECIADO, 2010, p.87). A revista estabeleceu uma associação entre interiores e arquitetura na afirmação de um tipo de masculinidade muito específica, performativa e sexualizada: o playboy. Esse tipo de masculinidade buscava se diferenciar e distanciar da masculinidade do marido/pai/provedor, que tinha como espaço de moradia a casa no subúrbio. Preciado argumenta que o apartamento da Playboy funcionava como um espaço de aprendizagem, voltado ao homem maduro de classe média, solteiro (ou divorciado) que deveria aprender as técnicas de sedução, transformando-se em um conquistador, como defendia a revista.

“Se quer se transformar em um homem, modifique seu apartamento”. O interior doméstico do apartamento converte-se em local de encontros, de experimentar as técnicas do “jogo do coelho”: um jogo de sedução leve, que busca envolver as mulheres nesse espaço de conquista e depois descartá-las, afastando-as da domesticidade. Esse jogo de sedução contava com vários dispositivos giratórios e adaptáveis, como o mobiliário moderno de caráter flexível, circular e reversível, que permitia várias posições e posturas além de sentar-se, apoiar, reclinar e se deitar, possibilitando e apoiando as estratégias de conquista, facilitando o sexo. Preciado classifica este jogo, repleto de possibilidades de inversão, como um jogo sem riscos que pretendia suspender, mesmo que temporariamente, a validez das normas sociais que pesavam sobre o homem americano de meia idade e de classe média. Uma das imagens da revista era um tipo de mapa, que indicava quais as ações recomendadas para a conquista: oferecer bebida, escolher a música, o móvel etc. Playboy mostra a capacidade de que a arquitetura e os interiores têm de animar uma narrativa.

O quarto do apartamento do solteiro. A centralidade da cama indica sua importância estratégica.
Hugh Heffner trabalhando na cama de sua mansão.

O espaço não era nem puramente privado, nem totalmente doméstico, no qual a gestão dos interiores equivale à gestão da vida sexual. A domesticidade, tão associada às mulheres, é transformada, diferenciando-se na domesticidade feminina. O espaço do apartamento deveria permitir e facilitar encontros sexuais, mas proteger o lugar da domesticação femininae do maior perigo para o solteiro: a jovem ansiosa pelo casamento e por uma casa suburbana. A revista recomendava manter uma cozinha mecanizada e tecnificada para afastar a proximidade das mulheres com este espaço. A “cozinha sem cozinha”, como sugeria a revista, era destinada aopreparo de refeições rápidas e de pratos que mostrassem os talentos do playboy, em termos de eficiência técnica e habilidade masculina, eliminando a ameaça da feminilização do espaço. A “cozinha sem cozinha” utilizava aestratégia da camuflagem, com áreas envidraçadas ou com fibra de vidro, exibindo apenas utensílios tecnológicos, distinguindo-se da cozinha tradicional associada à feminilidade e à domesticidade. A cozinha moderna do apartamento do solteiro possuía uma atmosfera antisséptica, semelhante à clínica, contribuindo com a camuflagem. A revista estabeleceu uma distinção entre feminino/natural e masculino/técnico, estendendo esta relação para os objetos mecânicos e elétricos que faziam parte do apartamento do solteiro. Neste espaço doméstico¸ as atividades culinárias são redefinidas em termos de eficiência técnica e habilidade masculina com utensílios e complexos objetos tecnológicos, demonstrando eficiência no preparo rápido de refeições. A cozinha foi transformada de espaço privado em espaço de exibição pública do objeto de desejo.

O guia proposto pela revista para o jogo de sedução no apartamento, passo a passo.

O programa antidomesticidade feminina promovido pela Playboy, que defendia desfazer-se das mulheres após o sexo, eliminando vestígios e impedindo que pudessem permanecer no apartamento e principalmente na cozinha, contribuiu para a construção da imagem do solteiro como um sedutor em série, como um agente duplo, um tipo de espião meticuloso (PRECIADO, 2010). Não é coincidência que o espião 007 seja um conquistador em série, esbanjando charme, armas e gadgets tecnológicos para salvar o mundo e suas parceiras.

Armadilha para o sexo instantâneo. Neste sentido, mobiliário moderno de designers como Charles e Ray Eames, Eero Saarinem, George Nelson são eleitos como extensões da masculinidade promovida pela revista. Toda a decoração do apartamento está à serviço da promoção e de facilitar o “sexo instantâneo”: bares giratórios, cortinas em telas, sofá-cama, poltronas, têm como objetivo vencer a resistência da “resignada presa”. O sofá D70 de Borsani, a poltrona Womb de Saarinem são usadas como exemplos de mecanização, conforto, mobilidade e flexibilidade nos interiores, reforçando os comportamentos sociais e sexuais. O sofá substitui a cama, com seu dispositivo flexível, permitindo driblar e invalidar rígidas regras sociais e sexuais.

O programa antidomesticidade feminina promovido pela Playboy, que defendia desfazer-se das mulheres após o sexo, eliminando vestígios e impedindo que pudessem permanecer no apartamento e principalmente na cozinha, contribuiu para a construção da imagem do solteiro como um sedutor em série, como um agente duplo, um tipo de espião meticuloso (PRECIADO, 2010). Não é coincidência que o espião 007 seja um conquistador em série, esbanjando charme, armas e gadgets tecnológicos para salvar o mundo e suas parceiras. Preciado defende que o apartamento do solteiro é uma sobreposição pornotópica de um novo espaço do capitalismo, espaço de consumo sexual na qual arquitetura e design modernos são fundamentais na construção e afirmação da masculinidade sugerida pela revista. A Playboy entendia a tecnologia e o design moderno como complementos naturais do corpo masculino, “concedendo ao mobiliário qualidades sobrenaturais”, representando-os como autênticas próteses do solteiro.

Referências

PRECIADO, Beatriz. Pornotopía : arquitectura y sexualidad em “Playboy” durante la guerra fría. Barcelona:Editorial Anagrama, 2010.

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