As mulheres na História do Design

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As mulheres foram historicamente segregadas da vida social e política, tendo como consequência a invisibilidade como sujeito (LOURO, 2007). A invisibilidade resulta de múltiplos discursos que associaram as mulheres à esfera doméstica, apagando contribuições na esfera pública, ignorando o fato de que mulheres das classes menos favorecidas sempre desempenharam atividades remuneradas fora do lar nas fábricas, lavouras e oficinas. A disposição de investigar e reescrever histórias sob a perspectiva feminista e das mulheres ganhou força e motivou estudos que visam reconstruir a contribuição de mulheres em diversas áreas do conhecimento.

O tema da invisibilidade foi proposto com o minicurso A (in)visibilidade das Mulheres no Design, ministrado pelas professoras do Departamento Acadêmico de Design da UTFPR Lindsay Cresto e Maureen Schaefer em 2020. O curso teve como objetivo investigaras contribuições das mulheres no campo do design e os mecanismos de apagamento em narrativas oficiais, a ponto de não encontrarmos referências de mulheres designers ou encontrarmos pouquíssimas (e sempre as mesmas) referências profissionais, inclusive nos livros de História do Design.

Apesar das mulheres estarem envolvidas com o design das mais variadas formas – como profissionais da área, teóricas, historiadoras, consumidoras e como objetos de representação -, a literatura sobre história, teoria e prática do design nos levaria a crer que suas contribuições foram mínimas, uma vez que as intervenções dos setores femininos no campo do design, tanto no passado quanto no presente, foram e ainda são, muitas vezes, ignoradas (BUCKLEY, 1986). Mulheres também foram excluídas das academias de arte por muito tempo, não frequentaram aulas com modelo vivo, pois considerava-se inapropriado observarem corpos despidos (SIMIONI, 2007). A sociedade burguesa europeia do século XIX estabeleceu classificações do que era uma arte “feminina”, em oposição à “masculina”, colaborando para a criação de estereótipos sobre as capacidades intelectuais associadas aos sexos (SIMIONI, 2007, p.91).

A disposição de investigar e reescrever histórias sob a perspectiva feminista e das mulheres ganhou força no final do século XX e início do século XXI, motivando inúmeros estudos que têm como objetivo reconstruir a contribuição e a participação de mulheres em diversas áreas do conhecimento. Nesse processo de reescrita da história de mulheres, mais do que indicar nomes e atividades, é preciso analisar e discutir os processos de apagamento, como as desigualdades operam na submissão, opressão e invisibilidade.

Segundo Cheryl Buckley, a definição de design adotada é determinante na exclusão ou inclusão das mulheres, como por exemplo, o design associado à produção industrial em larga escala. As teóricas feministas têm defendido que o design que enfatiza apenas uma forma de produção invisibiliza o trabalho das mulheres porque exclui a produção artesanal e em pequena escala. O local de produção também interfere na visibilidade: a esfera doméstica não recebe a mesma valorização da indústria, porque a esfera do trabalho/empresa faz parte de uma lógica capitalista mais explícita, que considera a fábrica ou escritório como o espaço do trabalho profissional remunerado, especializado, enquanto a esfera doméstica é considerada como espaço de reprodução, do cuidado, do trabalho não remunerado, amador ou pouco especializado. O artesanato, desta maneira, além de ser um modo de expressar habilidades de forma criativa, foi historicamente adequado ao espaço doméstico e às necessidades das mulheres que poderiam conciliar o cuidado com as crianças e o trabalho remunerado.

Alguns fatores podem reforçar ou diminuir a invisibilidades de mulheres no design. As parcerias, sejam pelas relações familiares ou pelo casamento, podem tanto diminuir como aumentar o apagamento de designers mulheres. May Morris, por exemplo, chegou a comandar a oficina do pai, era responsável pelos tecidos e tapeçarias, pelo rigor artesanal do bordado que ela dominava, porém, suas contribuições acabaram ofuscadas pela produção de William Morris nos registros oficiais. Classe também é um fator fundamental, pois as mulheres que tiveram acesso à educação formal têm diferentes possibilidades de atuação. Raça é outra categoria que pode aumentar ou diminuir a invisibilidade. Mulheres brancas têm experiência e trajetória de vida muito diferente das mulheres negras. Ann Cole Lowe, designer negra estadunidense, responsável por vários figurinos de sucesso em Hollywood, enfrentou inúmeras dificuldades para estudar e atuar como designer, num período marcado pela segregação racial.

A concepção autoria/obra é outro problema nas abordagens da História do Design, pois tem reforçado a narrativa heroica individual de alguns protagonistas, na maioria homens europeus, reforçando o apagamento não só das mulheres, mas de fatores complexos do processo de design, como as articulações entre produção, circulação e consumo. A narrativa autoria/obra esvazia os debates sobre as demandas e decisões econômicas envolvendo a produção de artefatos, tratando como um processo individual, quando é coletivo e que depende de questões sociais, culturais e políticas mais amplas.

Nos debates sobre gênero, não são as diferenças sexuais que são acionadas, mas as formas pelas quais elas são representadas, como são valorizadas enquanto caraterísticas masculinas ou femininas e como se constitui a visão sobre os lugares de homens e mulheres na sociedade. Mesmo disfarçada de senso comum ou revestida por uma linguagem considerada científica, a distinção biológica/ sexual “serve para compreender — e justificar — a desigualdade social” (LOURO, 2007, p. 21). As diferenças sexuais são usadas como argumento de categorização e afirmação de hierarquias que são tratadas como “naturais”, reforçando desigualdades de gênero. Essas hierarquias manifestam-se no design por meio da valorização e desvalorização de atividades e campos de atuação, como a ênfase na esfera da produção, colocando o consumo como atividade responsável pela maioria dos problemas ambientais da sociedade contemporânea.

Apesar das dicotomias de gênero sustentarem desigualdades sociais, “não podemos descartá-las como irrelevantes enquanto elas permanecem estruturando nossas vidas e nossas consciências” (HARDING, 1993, p. 26). Portanto, por mais que discordemos dos binarismos de gênero, eles fazem parte da nossa construção de mundo, sendo importante problematizá-los e desnaturalizá-los de modo que a percepção sobre eles seja transformada. A maneira como o design é teorizado-produzido é importante, uma vez que ao transformar ideias em formas sólidas, tangíveis e duradouras, o design parece ser a verdade em si mesma, agindo sobre nós, regulando nossos modos de pensar, sentir e estar no mundo (FORTY, 2007). Entendemos que o design não é um campo estável ou imutável; ao contrário, o campo está sujeito a transformações sociais. Propondo reflexões a partir de processos de conscientização, designers são capazes de tensionar padrões de opressão, colaborando para uma historiografia do design mais justa.


As próximas publicações são resultados dos seminários “A invisibilidade das mulheres na História do Design”, atividade proposta ao corpo discente das disciplinas História das Artes Gráficas, Teoria do Design 1 e 2, Teoria e História do Design 1 e 2, dos cursos de Design da UTFPR, sob a coordenação das professoras Lindsay Cresto e Maureen Schaefer.

Referências

  • BUCKLEY, Cheryl. Made in patriarchy: Toward a Feminist Analysis of Women and Design. In: Design Issues, vol. 3, n. 2 (out, 1986), pp. 3-14.
    CAMPI, Isabel. Teorias historiograficas del diseno. Disegno: Barcelona, 2013.
  • BUCKLEY, Cheryl. Made in patriarchy: Toward a Feminist Analysis of Women and Design. In: Design Issues, vol. 3, n. 2 (out, 1986), pp. 3-14.
  • FORTY, Adrian. Objetos de desejo: design e sociedade desde 1750. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
  • LIMA, Rafael Leite Efrem. Designers mulheres na História do Design Gráfico: o problema da falta de representatividade profissional feminina nos registros bibliográficos. In: Anais do XXIX Simpósio Nacional de História, 2017.
  • MILLER, Daniel. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
  • SAFAR, Giselle Hissa; DIAS, Maria Regina Alvares Correia. Estudos de gênero e seu impacto na história do design. Revista Dimensões. v. 36, jan.-jun. 2016, p. 102-120.
  • SANTOS, Marinês Ribeiro dos. Questionamentos sobre a oposição marcada pelo gênero entre produção e consumo no design moderno brasileiro: Georgia Hauner e a empresa de móveis Mobilinea (1962-1975). In: ALMEIDA, Marcelina das Graças; REZENDE, Edson José Carpintero;SAFAR, Giselle Hissa; MENDONÇA, Roxane Sidney Resende (orgs.) Caderno a Tempo. Histórias em arte e design. Vol. 2. Barbacena: EDUEMG, 2015.
  • SCHNEIDER, Beat. Design, uma introdução.O design no contexto social, cultural e econômico. São Paulo: Edgard Blücher, 2010.
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