Livro: A indústria da moda no capitalismo tardio: design, ideologia e relações de trabalho Autora: Joana Contino Data de lançamento: 2025 Editora: Rio Books Financiamento da pesquisa: Capes + FAPERJ
Joana Contino passou boa parte da infância na casa da avó Raquel, com a qual adquiriu seu interesse por tecidos, linhas e agulhas, o que mais tarde a inspiraria a trabalhar no campo da moda. Assim como muitos jovens recém-saídos da graduação, ela apostou no “empreendedorismo”, lançando uma marca de moda que durou mais de dez anos. E como microempresária experimentou muito do que ela discute teoricamente no livro “A indústria da moda no capitalismo tardio: design, ideologia e relações de trabalho”: a crença na “genialidade criadora”, o reconhecimento do trabalho precarizado na cadeia de produção, o fenômeno da centralização e concentração de capital, que, em tempos de popularização do fast fashion no Brasil, impediu que ela e sua sócia dessem continuidade à loja delas de moda autoral.
Sua atuação como docente de graduação na área criativa também influenciou os assuntos que trata no respectivo livro. Pois, conforme Joana, o ensino de design costuma focar na atuação profissional com vistas à competitividade empresarial, reiterando condições necessárias à reprodução capitalista. Ademais, boa parte da literatura empregada na formação dos futuros profissionais advém da contemporânea literatura administrativa gestorial. Sendo assim, para ela, a literatura dominante contribui para a naturalização do capitalismo e posiciona a empresa no centro da vida social. Tais construções discursivas não são ingênuas, uma vez que exercem influência na prática profissional de designers, no resultado de seus projetos e na ausência de consciência enquanto classe trabalhadora.
Nessa perspectiva, ela analisa as forças ideológicas que atravessam o campo do design (com ênfase no design de moda) e a atuação de seus profissionais. Ao evidenciar o caráter ideológico do design, ela busca demonstrar que a atividade está associada aos interesses da classe dominante. De modo que o esmaecimento de pensamento crítico sobre a profissão e a não identificação do profissional com a classe trabalhadora revelam a assimilação da visão de mundo burguesa, empresarial e capitalista. Mesmo designers que realizam projetos de cunho social ou trabalham em instituições públicas respondem à lógica do capital, que se estende por todas as relações sociais e esferas da vida.
Para sustentar essa análise, a autora dialoga com pensadores marxistas e com obras de Marx e Engels – ainda pouco explorados no campo do design. O método dialético e categorias do materialismo histórico constituem para ela, fundamentos essenciais para compreender fenômenos contemporâneos, uma vez que as dinâmicas do capitalismo descritas por Marx seguem operantes na atualidade.
Entre alguns temas abordados, Joana confronta nomenclaturas como “capitalismo tardio” e “sociedade pós-industrial”; trata da criação do design como profissão, da função de designer na divisão social do trabalho e das dinâmicas do fast fashion; tece críticas à “indústria 4.0”, discute a informalidade e a precarização na indústria da moda e investiga articulações entre automação e trabalho vivo.
Práticas de design, não raras vezes, vistas como neutras e autônomas, estão condicionadas aos mecanismos do capitalismo, possuindo além do seu caráter criativo, um papel ideológico relevante nas sociedades contemporâneas, justamente por seu aspecto econômico, político e sociocultural. O modo como pensamos, projetamos, produzimos, consumimos e nos vestimos importa, uma vez que tais ações têm efeitos concretos nas relações sociais e interespécies, nos conscientizarmos a respeito dessas questões é fundamental para buscarmos não endossar as cínicas estratégias do capitalismo, na tentativa de construirmos relações de trabalho mais justas, sensíveis, dignas, saudáveis e colaborativas.








